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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Alguns “ismos” das Ciências Sociais

por Januário Francisco Megale

Comunismo, epicurismo, estoicismo, cristianismo, historicismo, capitalismo, socialismo, imperialismo, funcionalismo, marxismo, cientificismo etc. são alguns dos inúmeros "ismos" das ciências sociais. O que vem a ser um "ismo"? Há várias acepções, conforme a área ou ramo de conhecimento. Assim, dogmatismo, ceticismo, subjetivismo, relativismo, pragmatismo e criticismo referem-se a posições assumidas ou idéias aceitas sobre a possibilidade do conhecimento. O dogmatismo defende que não existe o problema do conhecimento enquanto relação entre sujeito e objeto. As coisas existem pura e simplesmente, o jeito é acreditar. O ceticismo e o extremo do dogmatismo e afirma que o sujeito não pode apreender o objeto, daí o conhecimento ser impossível. Já o subjetivismo e o relativismo limitam a validade do conhecimento ao sujeito. Toda verdade é relativa, não há verdade absoluta. Para o pragmatismo, o conhecimento ou a verdade significam utilidade, valor, prática. Numa posição diferente, o criticismo admite o conhecimento, mas sob reserva. Não é dogmático nem cético, mas reflexivo e crítico. Para cada um destes “ismos” houve ilustres filósofos com suas obras clássicas. Além destes “ismos” há outros, referentes ainda ao conhecimento, sobre sua origem e sobre sua essência.

Na ciência política, por exemplo, há alguns "ismos" bem gerais e outros mais particulares ou específicos, como por exemplo, colonialismo, imperialismo, comunismo e bonapartismo, chauvinismo, bolchevismo. Afinal, o que vem á ser um "ismo"?

O "ismo" é uma posição filosófica ou científica que sustenta algo sobre uma idéia, um fato, um sistema, uma política, um programa, uma circunstância etc. É uma idéia central a nortear o adepto perante o mundo ou em face de determinadas coisas. É um método ou conjunto de valores, é um principio ou conjunto de princípios explicativos sobre alguma coisa ou algum fato. É uma filosofia ou um modo de ver o mundo ou determinado problema. Há tantas definições de "ismos'" quase quantos "ismos" há. Cada um tem seu contexto histórico em que surge e se desenvolve Ocorre, muitas vezes, que, após passar a ser moda ou um sistema de idéias dominante, o "ismo" cai no ostracismo. Mais tarde, pode ressurgir, como o liberalismo, que após quase cem anos, volta ao cenário das idéias da política econômica de vários países, chegando até nós, com a inauguração no Rio de Janeiro do Instituto Liberal, em 1983, com outros similares em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e outras capitais. Há ainda os "ismos'" apenas históricos, que tiveram seu tempo e hoje estão ultrapassados, continuando vivos apenas para compor o contexto histórico-social de um passado próximo ou remoto, do qual somos herdeiros como civilização e como cultura.

A inclusão deste capítulo neste roteiro de estudo tem tríplice objetivo. Primeiro, mostrar ao aluno que todo "ismo" é sempre parte de um conjunto, parte de um processo no qual surge e se desenvolve, podendo continuar ou ser substituído. Nada é gratuito nem fortuito na realidade social. O "ismo" tem raízes e se desenvolve sempre vinculado a uma filosofia da história ou a uma explicação pragmática do momento. Quase nunca é resultante só de um fato, mas engloba a realidade como um todo cultural. Segundo, além desta característica totalizante, é oportuno lembrar que nem todo "ismo" surge como resposta antagônica ou como guerra a outro ou a qualquer teoria anterior, embora isto tenha ocorrida. Há "ismos" bipolares, opostos, mas são bem menos numerosos que os outros. Há alguns, que derivados de outros, guardam sua essência, mas diferem na aplicação, no programa, na aceitação teórica ou na posição metodológica. Terceiro, há "ismos" que passam para a história como verdadeiras, piadas ou erros grosseiros, e, pior ainda, se perpetuam em livros didáticos. Cuidado, alerta: são as palavras de ordem diante do cipoal teórico das ciências sociais em tantos livros devorados por mestres e alunos. Na listagem a seguir são mencionados alguns ismos que se encontram nesta situação.

De modo algum esta relação é completa, não temos nada de completo neste roteiro, pois estamos tratando de generalidades, de miscelâneas, com nenhum compromisso com profundidade neste momento. Trata-se apenas de uma primeira aproximação.

 Anarquismo

O termo guarda o sentido etimológico: sem governo. Doutrina que defende uma sociedade livre de todo domínio. Significa libertação de qualquer dominação superior, de ordem ideológica (religião, doutrina política), de ordem política (estrutura de poder hierarquizada, de ordem econômica (propriedade dos meios de produção), de ordem social (classe ou grupo social), sindicato; clube, associação), de ordem jurídica (leis e normas). O sentimento geral pela liberdade individual é transporto para a sociedade e encontra no anarquismo forte aliado. O pensamento anárquico surge no final do século 18, com a obra de William Godwin: Enquiry concerning political justice. A bandeira do anarquismo (recusa da autoridade e da lei) está lançada nesta obra. Dentre os pensadores políticos que abraçaram o anarquismo, temos Proudhon, Bakunin, Malatesta, Stierner, Kro­potkin.

Autoritarismo

 Nas ciências sociais o termo tem dois sentidos: Primeiro, comportamento ou personalidade autoritários, tendo como área de investigação a psicologia. O livro clássico é A personalidade autoritária, de Adorno. Segundo, ideologia ou visão que preconiza os métodos autoritários sobre os liberais. O autoritarismo se aproxima do totalitarismo. Permite práticas liberais conquanto sujeitas ao controle da disciplina e da hierarquia. Emprega algumas medidas excepcionais do totalitarismo mas não seus princípios.

 Bonapartismo

 A expressão tem duplo significado. O primeiro, referente à política interna, com origem em Marx (O dezoito Brumário de Luís Bonaparte), expressa a forma de governo na qual o executivo concentra todo o poder em sua liderança carismática, como representante direto da nação, e árbitro imparcial perante todas as classes. O segundo, no sentido de política externa, tem um componente de expansionismo com duplo objetivo; além da expansão territorial, traz o objetivo de consolidação do regime de governo contra a oposição de grupos radicais. Visa a fortalecer o grupo dominante e enfraquecer os adversários internos. Neste sentido tem sido usado por historiadores alemães, como Meinecke e Fischer, para explicar a política externa da Alemanha guilhermina e nazista. O despotismo do poder bonapartista encontra sua válvula de escape contra pressões internas na política externa.

 Capitalismo

Sistema econômico que se fundamenta em alguns princípios, como:

1) propriedade privada dos bens ou meios de produção;
2) economia de mercado ou livre-câmbio, recusando qualquer limitação ao mercado;
3) utilização da tecnologia sempre renovada na produção;
4) racionalização do direito e da contabilidade em função dos princípios acima;
5) liberdade de trabalho e relações capital-trabalho reguladas pelo mercado;
6) comercialização da economia com vistas ao lucro. O capitalismo defende uma economia livre, não centralmente planificada.

É a liberdade na produção. O Estado não interfere senão para barrar aberrações contra tais princípios. O liberalismo tem sido fortemente vinculado ao capitalismo. Só vigora em países cujo regime pol político é também aberto, livre e democrático. A ética protestante contribui para o avanço do capitalismo através de suas normas de vida, como muito trabalho, pouco consumo, vida simples e muita poupança reinvestida. São muitos os autores clássicos do capitalismo como também os de seus inúmeros subterras. Desde Sombart, Weber, Schumpeter, até Galbraith, Hayek, Myrdal e outros contemporâneos.

Clientelismo

 Com origem na antiga Roma; clientela designava a relação entre indivíduos de status inferior, mas que viviam na comunidade, protegidos pelos chefes de família. Relação de dependência econômica e política entre o chefe e o cliente numa fidelidade recíproca. O clientelismo vigorou de maneira dominante na política brasileira da Velha República (1889-1930), sob o domínio das oligarquias rurais. O livro nacional que bem descreve o clientelismo é Coronelismo, Enxada e Voto, de Vitor Nunes Leal.

 Comunismo

É um regime político e um sistema econômico fundado em alguns princípios, entre os quais citam-se:

1) o trabalho é a única fonte do valor;
2) o capital é um contínuo roubo ao trabalho;
3) o capitalismo é um sistema que leva a sociedade a uma crescente proletarização;
4) o proletariado (classe trabalhadora) conduzirá a sociedade a uma nova forma de regime político e econômico;
5) para garantir e apressar a retórica do proletariado, é necessário e urgente criar a consciência de classe.

Surgiu na Europa no século 19 e tem em Marx, Engels e seus seguidores sua fundamentação teórica bem estruturada. O Manifesto do Partido Comunista é a carta magna do comunismo. Como modo de produção está superado para o futuro. O comunismo primitivo é outra coisa bem diferente, cujos resquícios conhecemos através da antropologia, nas sociedades tribais, ágrafas, primitivas ou selvagens, como nossos índios não-aculturados. Desde Marx e Engels não cessa de crescer os apologistas tanto do capitalismo como do comunismo.

 Determinismo (e Possibilismo)

Há vários determinismos; tratamos aqui do geográfico e, en passant, do econômico. O determinismo econômico é um item ou tópico de importância secundária no conceito de modo de produção e seu componente inseparável de infra-estrutura. Digo de importância secundária porque o determinismo econômico de Marx sofreu diversas interpretações no correr do tempo. Marx não era tão determinista (ou mesmo marxista) como seus intérpretes e seguidores. O determinismo geográfico tem raízes profundas na história. Já Hipócrates (século V a.C.) assinalava em Dos ares, das águas e dos lugares o caráter determinista dos fenômenos físicos sobre o comportamento humano. O mesmo ocorreu com Montesquieu em Do espírito das leis (1848), sobretudo com o clima como fator determinante do caráter do povo.

 “Dê-me o mapa físico de um país, ... que lhe direi, a priori, qual região será relevante na história, não por acidente, mas por necessidade.”

 A afirmação acima, de Victor Cousin retrata bem o significado do determinismo geográfico. Imputado a Ratzel; como grande divulgador desta teoria, o determinismo teve grande divulgação como posição doutrinária da geografia alemã, em oposição à geografia francesa, o que não corresponde à verdade. A leitura de Antropogeografia, de Ratzel, mostra o ledo engano desta tese difundida ainda em livros didáticos. Vidal de la Blache e a geografia francesa surgiram como divulgadores do Possibilismo em oposição ao determinismo geográfico alemão. O possibilismo defende a possibilidade da ação humana sobre o meio físico, sobretudo com o avançar da técnica. Esbarra com a ecologia que combate o crescente rompimento do equilíbrio ecológico. Desde Haeckel e Sorre a ecologia tem sido tema estreitamente ligado à geografia, fazendo parte de sua natureza ou sua essência. A rivalidade entre a França e a Alemanha de então, com a derrota francesa na guerra franco-Prussiana (1870), e a reconhecida superioridade da geografia alemã fizeram com que surgisse esta vinculação do determinismo à geografia alemã e do possibilismo à geografia francesa.

O possibilismo não deve ser confundido com possibilidades (ou oportunidades) de vida – Lebenschancen ou life-chances – tema ligado à mobilidade social, tratado por Weber (Economia e Sociedade, 1922) na área da sociologia.

Outra acepção do possibilismo é a de determinismo cultural, tão divulgado na antropologia do século XIX, a designar o crescimento regular da cultura ou o condicionamento cultural. Os dois clássicos do tema são A antiga sociedade (1877) de Morgan, e A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884) de Engels.

Esquerdismo

O vocábulo tem dupla origem. Primeiro, a palavra skaios (em grego, esquerda). Segundo, no parlamento francês os oposicionistas (jacobinos) ocupavam as cadeiras do lado esquerdo (la gauche). É a posição política que luta por reformas políticas, sociais e econômicas profundas ou por meio de processos violentos, até mesmo da revolução. A esquerda geralmente representa uma força social revolucionária, às vezes reformista; nunca, porém, conservadora ou reacionária contra as quais luta com denodo. O conceito se baseia na simetria espacial. É uma forma simplista de classificar pessoas e regimes políticos. Termo utilizado pela linguagem jornalística, pela linguagem oral, e até mesmo pela linguagem acadêmica, mas com elevado grau de imprecisão. Aqui também há clássicos.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

domingo, 8 de julho de 2012

O Direito Constitucional de Ler


Querid@s ongepian@s.... É tempo de ler... Ler, Ler e Ler... Essa é uma das dificuldades quanto a entrada ao vestibular. O gosto pela leitura é algo extremamente difícil e complicado. Digo isso por experiência própria, pois o primeiro livro que li foi quando peguei o Código DaVinci de Dan Brown, isso aos 18 anos de idade. No entanto, apenas tomei o "gosto pela leitura" quando comecei a encarar o livro sob outro enfoque... Não o de compromisso, frieza, imposição. Não, mas foi quando o livro passou a tornar-se algo além de algumas folhas escritas sobre papéis. Sentimento puro, Sabe... Algo arrebatador. 
Por isso, proponho que vocês leiam este artigo de Nikelen Witter sobre o escritor Argentino chamado Mempo Giardelli, que está lançando o livro Voltar a Ler: Propostas para ser uma Nação de Leitores. Nele, Mempo faz uma análise sobre uma Argentina leitora que se esvaziou nos porões da Ditadura, principalmente, pelo Governo Autoritário considerar a Escola como sendo algo perigoso. No entanto, os Governos democráticos atuais tem na visão sobre a Escola a formação do ser humano não como trabalhador, em sua relação íntima, integrada e contextualizada ao trabalho, mas como meros consumidores.
E no Brasil? Temos esse problema? Será que estamos na mesma situação que a Argentina?
Porém, muito mais que analisarmos o contexto argentino e o brasileiro, quero que vocês reflitam sobre o conceito que vocês tem sobre o livro. "Qual é a minha relação com o Livro?", uma pergunta na qual devemos fazer além da mera obrigação para o Concurso Vestibular, mas para uma condição de Reflexão e Liberdade ao contexto em que estamos inseridos...
Uma ótima semana a tod@s..... e boa leitura.....
Fellipe Madeira
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O Direito Constitucional de Ler 
(Nikelen Witter*)
O escritor argentino Mempo Giardinelli é um utopista. Nenhuma crítica minha no uso deste termo. Vivemos um tempo de superação das utopias que aspiravam à perfeição e que, por conta disso, poderiam levar à frustração e ao autoritarismo. Prefiro pensar nas utopias como propôs Ernst Bloch, como um princípio de esperança. Sendo assim, gosto imensamente de utopistas. Imagino-os como cartógrafos de territórios ainda não mapeados ou conquistados. Os utopistas nos dão um norte, uma busca, traçam os planos de nossa próxima aventura. Como o Quixote, amado por Mempo, os utopistas olham os moinhos de vento e os enfrentam, junto com o temor próprio de assaltar algo muito maior que si mesmo. Os utopistas são ainda mais importantes num mundo mergulhado nas imagens distópicas como o que vivemos. Não nos faltam anunciadores do apocalipse. Faltam-nos, porém, os que olham o futuro com um realismo otimista, não por acreditarem que as coisas simplesmente se resolverão, mas por ousarem imaginar, agir e criar metas.

Mempo Giardinelli: "Os processos ditatoriais e sua ação criminosa sobre a educação de suas populações" | Foto: Divulgação
Voltar a Ler: Propostas para ser uma nação de leitores é uma obra que encarna os sonhos de Mempo Giardinelli, levando-nos a sonhar junto. Mais que isso, há nela um condão desestabilizador. Daquele tipo que nos faz levantar da cadeira com a vontade louca de fazer alguma coisa, qualquer coisa. É fácil a bandeira de Mempo tornar-se a nossa, suas palavras são convincentes, falam à alma, falam a estrutura básica, especialmente, daqueles que já são leitores. No caminho traçado por suas palavras, o escritor não se abstém de incomodar governos, pais, professores, chamar culpas, sejam próprias sejam impingidas pelo mundo em que mergulhamos nesta virada de século.

Leitura pública de Charles Dickens: "Estudantes de graduação e pós-graduação que reclamam do tamanho dos textos que têm para ler"
O olhar de Giardinelli sobre a Argentina chama atenção sobre um problema que atingiu a América Latina como um todo nas últimas quatro décadas do século XX: os processos ditatoriais e sua ação criminosa sobre a educação de suas populações. Onde ela não existia não se desenvolveu; onde já tinha raízes foi podada; onde já era árvore foi assassinada na base do serrote da violência profissional e da intolerância e restrição dos programas educacionais. O fato é que a reconquista democrática ainda não conseguiu retomar este terreno fundamental e, com isso, tudo o que alcançamos foi uma democracia capenga. “O triunfo ideológico das ditaduras foi tão grande que ainda estamos pagando por ele”, diz Mempo. Se os governos ditatoriais trataram a educação como um inimigo a ser combatido; os novos governos democráticos pecam, na visão do autor, por verem a educação como um programa para a criação de trabalhadores para o mercado, não somente o de trabalho, mas, principalmente, o de consumo. Este último, como sabemos, se alimenta justamente do processo irreflexivo ingestão de “ofertas”. Sendo assim, a educação passou a ser pautada em metas quantitativas e a busca dos números positivos tornou-a funcionalista e, logo, facilmente permeável a posturas retrógradas, que contribuem para eliminar-lhe a liberdade e a criatividade. O ponto mais desmerecedor de toda esta estrutura, para Giardinelli, é o fato desta educação não basear-se na leitura, mas, tão somente, em fazer uso dela como uma escada para alguma outra coisa. Se a educação é para o mercado e não para as pessoas, a leitura nela prevista é a leitura feita por dever, para que se alcance algo: uma nota, um cargo, um salário.

A edição brasileira do livro de Giardinelli
A retomada da Argentina como uma sociedade leitora
O livro foi escrito com o objetivo de propor, de forma prática, dentro e fora das instituições, a retomada do caminho da Argentina como sociedade leitora. As propostas descritas, além de implementadas pela ONG criada por Mempo Giardinelli, foram acolhidas pelo estado argentino, passando a compor tanto a Lei Nacional de Educação, quanto o Plano Nacional de Leitura (PNL) daquele país. Sua publicação no Brasil, em 2010, pretendeu, da mesma forma, socializar a experiência dos hermanos e demonstrar o uso destas ideias também para o Brasil.
Nunca fomos uma sociedade leitora. A leitura na história do Brasil, quase sempre, manteve-se em guetos elitistas, inacessível, cara, particularizada.
Contudo, mesmo com as semelhanças da época em que se vive e da experiência ditatorial, o cenário argentino difere em muitas questões do brasileiro, daí o fato de alguns conceitos desenvolvidos por Mempo precisarem de uma reflexão maior e aplicada. Um deles é o conceito de resistência cultural proposto pelo autor e que ele aplica a uma Argentina que já foi leitora e se perdeu (apenas no meio do livro é que ele faz a ressalva da necessidade de se relativizar os dados mais antigos e não idealizar a sociedade leitora de outrora). De qualquer forma, se pensarmos em nossa percepção da Argentina, nós também a idealizamos como uma sociedade bem mais leitora que a nossa. Uma nação que, em algum momento de sua história, quase erradicou o analfabetismo, um feito que, para o Brasil, ainda é uma meta a alcançar. E uma meta tristemente menos próxima do que desejaríamos.

"Ler muito deixa louco, ler é coisa pra rico, ler pra quê?" | Imagem: Isaac Israëls, Girl reading on the sofa (1920)
E aí está nossa principal diferença. Nunca fomos uma sociedade grandemente leitora. A leitura na história do Brasil, quase sempre, manteve-se em guetos elitistas, inacessível, cara, particularizada. Nossa cultura mantém ainda a sensação de que os livros não são para todos. No interior do Rio Grande do Sul ainda se pode ouvir ditos como: ler é coisa de vagabundo, ler muito deixa louco, ler é coisa pra rico, ler pra quê? Isso sem falar nos estudantes de graduação e pós-graduação que reclamam do tamanho dos textos que têm para ler; dos jovens do ensino médio que aprendem por polígrafos cheios de fragmentos e nunca textos completos; por crianças que jamais aprendem a ler em voz alta e acreditam que compreender um texto é responder o questionário do professor copiando trechos ou respostas que “agradem”. Nossa palavra chave, diferente da proposta de Mempo, talvez não seja de resistência, mas de conquista. E o caminho é igualmente árduo, ou quiçá, ainda mais.
Para que se quer uma sociedade leitora?
Ainda assim, as propostas de Voltar a ler podem e devem ser lidas como propostas para iniciar a ler; e muito se pode aprender com a experiência argentina. Neste caso, vale destacar o PNL argentino conseguiu entre 2006 e 2009 aumentar em 24 pontos a capacidade de compreensão leitora dos jovens escolares. Entretanto, antes de tudo, cabe a pergunta: para que se quer uma sociedade leitora? Esse é o tema da primeira parte do livro, cuja paixão e a ênfase podem nos fazer acreditar que nele estão algumas contradições com as ponderações posteriores da obra. O fato é que não se pode dizer tudo de uma única vez e, em especial, o primeiro capítulo tem um tom quase de manifesto, deixando para os outros as avaliações e propostas de ação mais estruturadas. Como manifesto – mais que suas possíveis contradições – é necessário que se atente para a beleza do sonho de um país de leitores.
A leitura deve tornar-se prazer, desejo, momento. Mais que tudo, a leitura deve ser sinônimo de liberdade e não de imposição.

Mempo: "A leitura deve ser desvinculada do dever" | Foto: Divulgação
O primeiro ponto a ser encarado pelos poderes públicos – na visão do autor – é que um tipo de ação é construir a importância da leitura na sociedade. Isso, diz Mempo, a Argentina já domina (o Brasil também, em parte). No entanto, é preciso ultrapassar a construção da importância da leitura para construir a leitura propriamente dita. Para isso, sugere, a leitura deve ser desvinculada do dever, dos números, das progressões. A leitura deve tornar-se prazer, desejo, momento. É coletiva quando partilhada e ouvida. É pessoal e intransferível quando silenciosa e eletiva. Mais que tudo, a leitura deve ser sinônimo de liberdade e não de imposição. A leitura se faz para o sujeito e não para o mercado. Aliás, este é o grande erro da educação que se tem proposto aos nossos filhos e alunos.
O autor chama nossas gerações adultas à responsabilidade dentro e fora das escolas. Não é apenas o modelo educacional que deve ser criticado. A postura dos pais que se escoram na televisão como fonte única de contato das crianças com a imaginação. Os avós que deixam de contar histórias. A conversa que não se estabelece e que, por conta disso, não estimula a construção de narrativas entre gerações. A falta de tempo para a partilha do lido, do percebido, do imaginado. Resistir, diz Mempo. Nosso papel é resistir ao mundo que nos engole e manter vivo o espaço do ler e do narrar.

"A liberdade de produzir ideias próprias e de interpretar o mundo que nos rodeia" | Foto: http://www.blogdatricae.com.br/
Porque somos mais livres quanto mais somos capazes de ler.
Por quê? Porque somos mais livres quanto mais somos capazes de ler. Quanto mais ideias diferentes formos capazes de processar, melhor será nossa capacidade de produzir ideia próprias, originais, e não impostas pelo que é absorvido sem reflexão. Ler, define o autor, é uma ato de inteligência, um trabalho intelectual de interpretação do mundo que nos rodeia. Não é somente da ignorância que a leitura nos retira, mas da ingenuidade, da aceitação muda, da incapacidade de reagir, do pasmo diante dos acontecimentos, da inação castradora, punitiva e frustrante. Daí a importância em se pensar o acesso à leitura como um Direito Constitucional de cada cidadão. Ninguém pode ser despossuído deste que é um direito fundamental numa democracia: ser capaz de pensar por si, tomar decisões baseadas na consciência alimentada pela leitura e pela reflexão sobre ela e o mundo. Alienar um povo da leitura é torná-lo massa de manobra fácil, é jogá-lo no desamparo dos tiranos, é incapacita-lo de construir um mundo mais justo.
Concordo com sua postura de se colocar contra o paradigma do fim dos tempos, professado por tantos intelectuais que anunciam o fim dos livros, da leitura, da inteligência, da História.

Mempo: "Um processo de formação educacional voltado para o desenvolvimento da capacidade de ler" | Jessie Wilcox Smith "Books in Winter"
Aqui é possível que alguém critique a posição do autor e diga que esse processo não é automático. Que a leitura não tem todo esse poder. Meu contra-argumento é só um: se uma sociedade leitora não tem esse poder, muito menos o terá uma sociedade que não lê. A leitura é a possibilidade de fazer algo diferente do que temos. Sem leitura, não temos sequer essa possibilidade. E neste sentido, coloco-me inteiramente ao lado de Mempo Giardinelli. Da mesma forma, concordo com sua postura de se colocar contra o paradigma do fim dos tempos, professado por tantos intelectuais que anunciam o fim dos livros, da leitura, da inteligência, da História; que dizem que nada pode ser feito contra a as forças destruidoras da globalização e do mercado (bem entendido, que estas forças se combinam com coisas boas e benéficas, e que é preciso separar ao invés de aceitar ou rejeitar tudo). Aqui também o termo resistência é empregado. Resistência contra as forças derrotistas e alarmistas, contra os que se recusam a investir, contra os que colocam a culpa nas novas gerações e lhes retiram de antemão qualquer possibilidade de investimento e entendimento. Afinal, penso eu, conquistar os jovens leitores não é impor-lhes que sejam o que fomos, mas compreender o que eles querem ser e somar sem subtrair.
Pedagogia da Leitura
Assim, Giardinelli aposta na leitura como a base de uma educação erigida como razão e fundamento do estado democrático. Para isso, ele propõe uma Pedagogia da Leitura, ou seja, todo um processo de formação educacional voltado para o desenvolvimento da capacidade de ler.

"Ora, como poderão insuflar paixão e desejo por algo que lhes é, igualmente, um tormento?" | Anna Karina em Alphaville, de Jean-Luc Godard
O escritor também se coloca contra a culpabilização excessiva e exclusiva da televisão e das novas tecnologias que envolvem internet, jogos, interatividade e comunicabilidade. Para ele, uma sociedade formada na leitura terá menos interesse pela televisão de baixa qualidade e maior capacidade de seleção da programação. Da mesma forma, saberá utilizar como aliados todos os novos recursos tecnológicos, os quais, na maioria das vezes, têm a leitura como base da comunicação.
Sabemos que no Brasil temos uma boa quantidade de professores que não têm a leitura como um hábito de lazer. Eles também se ocupam dela como um dever, como uma obrigação a cumprir.
No entanto, aí se tem um novo problema, o qual, creio, ainda é parte importante do debate sobre a leitura. Qualquer leitura é válida, ou somente algumas leituras o são? Mempo acredita que é necessário relativizar a pergunta e as respostas, porém, ele acredita que quanto mais se lê mais se tem capacidade de discernir sobre a qualidade das leituras. Pessoalmente, eu acredito na capacidade da leitura de autopromover-se junto ao leitor. O início – HQs, livros simplificados, entretenimento – não determina o fim, pelo contrário, quanto mais rica a leitura, maiores são suas possibilidades. A leitura não fecha portas, abre. Todavia, fornecer os instrumentos de fomento e incremento da capacidade leitora é, sim, uma das tarefas mais importantes a serem assumidas pelo sistema educacional como um todo, função a qual os educadores não podem se furtar. Acontece que, da mesma forma que Mempo percebeu para a Argentina, sabemos que no Brasil temos uma boa quantidade de professores que não têm a leitura como um hábito de lazer. Eles também se ocupam dela como um dever, como uma obrigação a cumprir. Ora, como poderão insuflar paixão e desejo por algo que lhes é, igualmente, um tormento? Daí a necessidade primária de devolver aos professores sua dignidade profissional, pessoal e salarial, dando-lhes espaço e incentivo, bem como auxílio, para retomarem (ou incorporarem) a leitura em seu cotidiano de trabalho e vida.

Imagem de uma Maratona de Leitura na Argentina: unindo tecnologias com critério
A “sobre-educação” argentina
As análises de Giardinelli prosseguem em termos políticos e econômicos. Em uma de suas páginas mais dolorosas sobre a crise econômica Argentina da primeira década do século XXI, o autor cita a recomendação do Fundo Monetário Internacional de que a sobre-educação dos argentinos os fazia ter demandas incompatíveis com os novos tempos econômicos. A opção política e econômica mais viável – e aceita pelas autoridades argentinas – foi a do embrutecimento e do aprofundamento da ignorância. O triunfo da bestialidade deu asas ao aumento da violência, da depredação das escolas e de sua transformação em campos de concentração, com professores convertidos em carcereiros (ora agressores, ora agredidos) e alunos vigiados. A escola converteu-se num depósito, pois “estar aí, era melhor que estar na rua”. Qualquer semelhança com as escolas brasileiras, com certeza, não é mera coincidência. E então, eu me pergunto da validade desta frase. Afinal, se é esta escola que podemos oferecer, será mesmo o melhor? Pois, se a escola que se converte numa rua sem lei, onde impera a lei do mais forte e não da razão, terá sentido fingir que ali se promove educação?
A leitura precisa de projetos visíveis, continuados, que não dependam dos sabores e vontades de governos cambiantes.
É por conta disso, e apostando no poder da leitura e da narrativa como fontes de resistência e reivindicação, que Giardinelli convoca professores e pais e retomarem seus lugares de inspiradores das novas gerações, usando para isso, de uma Pedagogia da Leitura. Uma atuação direta de fomento, de contato, inspirada no próprio ato de ler, narrar e conversar. Este ponto do livro me foi muito interessante, pois me ajudou a formalizar algo que há muito me incomodava. Sempre tive um desconforto com o modelo campanhista que nos chega pela publicidade midiática e que parece ser o mais adotado pelo sistema brasileiro no caso da leitura. Posso estar equivocada, mas não consigo crer neste modelo como base para o fomento da leitura. As ações em prol da leitura não deveriam se basear em campanhas, mas em atos permanentes, numa pedagogia incorporada como atividade cotidiana. A leitura não funciona como um tipo de vacina, não se inocula a vontade de ler e se espera que ela se desenvolva. A leitura precisa de projetos visíveis, continuados, que não dependam dos sabores e vontades de governos cambiantes. Para isso, no entanto, é preciso que, definitivamente, se deixe de tratar – não estou falando do que se escreve ou diz, mas dos atos – a educação como um gasto e se passe a lhe dar o legítimo lugar de investimento no futuro do país.

Mempo: "Leitura e sonho para não definhar" | Foto: Divulgação
Ativismo pela leitura
As propostas de Mempo Giardinelli são factíveis e lúcidas. A segunda parte do livro é clara em detalhá-las. Algumas dependem da vontade dos governos, mas todas, antes de tudo, dependem da exigência dos cidadãos conscientes de que preciso fazer alguma coisa. De que é necessário assumir um ativismo pela leitura, pois ele é a base de todos os outros ativismos que buscam um mundo melhor e mais justo. Leitura e sonho são forças que se auto alimentam. Começamos como uma e desembocamos na outra. Separadas estas forças, estamos fadados a esmorecer e definhar.
“O que cabe fazer aos que só pensam e refletem mas não têm soluções nas mãos nem possibilidades concretas de modificar a realidade? Minha resposta é: continuar sonhando e espraiar o sonho. Para isso servem os poetas. Seu destino, seu drama é sonhar o impossível, talvez um mundo melhor. Descrever infernos. Antecipar horrores. Conceituar o etéreo. Apreciar o oculto. Desvelar o insondável. Explorar o desconhecido. Criar essa alteridade que é a arte.”
.oOo.
* Nikelen Witter é historiadora, professora e escritora.
Fonte: Sul21 (www.sul21.com.br)

Charge de Bill Charmatz

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Crises do capitalismo (David Harvey)

Neste vídeo o renomado geógrafo inglês David Harvey apresenta uma explicação super didática sobre as crises do capitalismo, tendo em conta as repercussões da crise financeira mundial de 2008. Vale a pena conferir!

sábado, 16 de junho de 2012

Edição deste ano bate recorde de inscrições, com 6,4 milhões de candidatos


As inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2012 chegaram a 6.497.466 candidatos, um recorde comparado ao número de inscritos da edição de 2011. Foram 275.769  inscrições a mais. O processo foi encerrado às 23h59 desta sexta-feira, 15 e aberto em 28 de maio. São Paulo (1.068.517), Minas Gerais (723.644), Rio de Janeiro (474.046), Bahia (458.101) e Rio Grande do Sul (394.641) são as unidades da federação com maior número de inscritos.

Feita apenas pela internet, a inscrição será confirmada após o pagamento da taxa de R$ 35, até o dia 20 próximo, por meio de guia de recolhimento da União (GRU) simples. Aluno de escola pública que esteja concluindo o ensino médio e se declarar integrante de família de baixa renda está liberado do pagamento. O pedido de isenção deve ser feito no momento da inscrição, também pela internet.

As provas serão aplicadas em 3 e 4 de novembro, em todas as unidades da Federação, a partir das 13 horas (de Brasília). No primeiro dia, sábado, serão realizadas as provas de ciências humanas e suas tecnologias e ciências da natureza e suas tecnologias, com duração de quatro horas e meia. No domingo, os estudantes terão cinco horas e meia para fazer as de matemática e suas tecnologias; linguagens, códigos e suas tecnologias e a redação.

A divulgação do gabarito oficial, como estabelece o edital do exame, está prevista para 7 de novembro. O resultado final estará disponível para os estudantes a partir de 28 de dezembro.

Fonte: Assessoria de Comunicação - Ministério da Educação

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Aula interdisciplinar sobre Racismo 14/06/2012 - Sociologia-Biologia





Continuando a discussão proposta em aula, temos esses dois vídeos sobre o racismo.... Os vídeos foram enviados pelo professor de Sociologia da manhã Márcio Solh.... Aliás, o primeiro vídeo foi, também, uma sugestão de uma aluna da ONGEP na aula de quinta-feira....




Por último, posto este vídeo com a música 1999 da banda de reggae Natiruts, que em suma, relata a importância de um resgate e valorização da cultura do negro no Brasil, como descrito na letra abaixo.




"A cultura e o folclore são meus

Mas os livros foi você quem escreveu
Quem garante que palmares se entregou
Quem garante que Zumbi você matou
Perseguidos sem direitos nem escolas
Como podiam registrar as suas glórias
Nossa memória foi contada por vocês
E é julgada verdadeira como a própria lei
Por isso temos registrados em toda história
Uma mísera parte de nossas vitórias
É por isso que não temos sopa na colher
E sim anjinhos pra dizer que o lado mal é o candomblé
A energia vem do coração
E a alma não se entrega não
A energia vem do coração
E a alma não se entrega não
A influência dos homens bons deixou a todos ver
Que omissão total ou não
Deixa os seus valores longe de você
Então despreza a flor zulu
Sonha em ser pop na zona sul
Por favor não entenda assim
Procure o seu valor ou será o seu fim
Por isso corre pelo mundo sem jamais se encontrar
Procura as vias do passado no espelho mas não vê
E apesar de ter criado o toque do agogô
Fica de fora dos cordões do carnaval de salvador
A energia vem do coração
E a alma não se entrega não
A energia vem do coração
E a alma não se entrega não".




quinta-feira, 14 de junho de 2012

Direito de resposta Brizola X Globo

Um momento histórico, impressionante.


Vídeo visto na aula de Sociologia do dia 13 de junho - manhã. Profs Val e Solh.