A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
Eduardo Galeano
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Fellipe Madeira
Muitxs não entenderão o que aconteceu na última semana, especificamente, na segunda semana de julho de 2013 em Porto Alegre.
Pra aquelxs que acompanham as notícias através das mídias tradicionais, que acreditam fielmente em interlocutorxs como Paulo Sant'ana, David Coimbra, Lasier Martins, Maria do Carmo, Alexandre Mota, entre outrxs, provavelmente, não conseguirão compreender o que ocorreu na Câmara do Vereadores. Talvez sejam xs mesmxs que "acordaram", no famoso lema "O Gigante Acordou", bradado e cantado aos quatros ventos, até mesmo pelo cantor Latino. Nada contra tais pessoas, pois fomos criadxs e bombardeadxs com a concepção de que os únicos meios de comunicação confiáveis restringiam-se à televisão, ao rádio, ao jornal.
Transcender a esse tipo de visão, essa foi a mensagem daquelxs que permaneceram ocupando a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre.
Transcender a esse tipo de visão, essa foi a mensagem daquelxs que permaneceram ocupando a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre.
O Neoliberalismo trouxe consigo muito mais que a miséria ou o decreto do fim da história. Na verdade, tal concepção ideológica estabeleceu que cada pensamento diferente deveria ser caracterizado como errôneo, justamente, as utopias foram consideradas como perniciosas a um mundo totalmente racional. Sim, estávamos "proibidxs" em pensar num mundo melhor, numa sociedade que se diferenciasse, do individualismo predatório, da falta de noção do que é o bem coletivo, do ser enquanto mercadoria, do machismo. O que as pessoas mostraram nessa semana foi a possibilidade de um mundo em que velhas estruturas mais do que podem, devem ser repensadas.
Muitxs doutorxs em Ciências Humanas tentarão estabelecer critérios, formular teorias, buscar explicações em Bourdieu, Kirchheimer, Marx, Weber, Baudrillard, Foucault, etc... Sim, são autores de extrema importância em nossa ciência, mas o que fica de fato é tentar compreender o sentido do que fora proposto em Porto Alegre.
Além da "simples" constatação política, ou seja, da crítica sobre a Democracia representativa, o Bloco de Lutas, juntamente com todxs xs seus apoiadorxs, construíram uma esfera de poder que estabelecia o diálogo horizontal, uma dinâmica de autogestão, uma relação de liberdade e respeito entre todxs xs que frequentaram o prédio da Câmara. A noção de um mundo melhor passa pelos pequenos atos, pelos micro-poderes, pela preocupação em cuidar do local onde estávamos, na preparação da comida, no respeito a todo o Ser, na valorização da expressão cultural como modo de conscientização política, ou seja, na construção coletiva.